Quando cantas

XXVI

Quando cantas, minh’alma desprezando
O invólucro do corpo, ascende às belas
Altas esferas de ouro, e, acima delas,
Ouve arcanjos as cítaras pulsando.

Corre os países longes, que revelas
Ao som divino do teu canto: e, quando
Baixas a voz, ela também, chorando,
Desce, entre os claros grupos das estrelas.

E expira a tua voz. Do paraíso,
A que subira ouvíndo-te, caído,
Fico a fitar-te pálido, indeciso…

E enquanto cismas, sorridente e casta,
A teus pés, como um pássaro ferido,
Toda a minh’alma trêmula se arrasta.

Olavo Bilac

Amigo

Nesta vida inteira vi muitas definições de “amigo”
nenhuma tão verdadeira quanto esta,
que tenho agora comigo.

Não foi uma definição escrita, lida, ou mesmo falada.
Foi sua atitude bonita, sem ter pedido nada.

Não poupou as palavras, ditas com sinceridade.
Foi leal, foi fiel, sem nenhuma maldade.
Abusou da franqueza dizendo o que achou que devia,
mas mantendo a fineza, que uma dama merecia.

Mostrou-me o caminho que eu não deveria tomar,
pois, como um pássaro cego, eu tentava voar.

Na profundidade desse seu gesto, pude compreender:
Você sabia muito mais de mim,
do que eu deveria saber.

E nesse seu ombro amigo eu pude, inteira, me apoiar.
Eu que só queria sua mão para segurar.

Para “amigo” não busco mais nenhuma definição,
porque carrego esse seu gesto bem
guardado no coração.

Fonte: site Declaração de Amor

Primavera

Chegou a primavera, a fiandeira,
vestindo policrômica roupagem;
olha como se veste, mãe, a terra inteira,
para a dança festiva da paisagem!

O Lavrador e a Cegonha

Uma Cegonha de natureza simples e ingênua por ser boa, foi convidada por um bando de Garças, a visitar com elas, um campo que fora recentemente semeado. Mas, a festa acabou bruscamente, quando todo o bando foi capturado numa armadilha colocada no local, pelo lavrador dono daquele cultivo.

A Cegonha pediu então ao lavrador que a deixasse ir embora. Ela argumentou dizendo:

Pássaro Marinho

Manhã de maio, rosas pelo prado,
Gorjeios, pelas matas verdurosas
E a luz cantando o idílio de um noivado
Por entre as matas e por entre as rosas.

Uma toilette matinal que o alado
Corpo te enflora em graças vaporosas,
Mergulhas, como um pássaro rosado,
Nas cristalinas águas murmurosas.

Dás o bom dia ao Mar nesse mergulho
E das águas salgadas ao marulho
Sais, no esplendor dos límpidos espaços.

Trazes na carne um reflorir de vinhas,
Auroras, virgens músicas marinhas,
Acres aromas de algas e sargaços!

Aníbal Beça

Z

As formas, as sombras, a luz que descobre a noite
e um pequeno pássaro

e depois longo tempo eu te perdi de vista
meus braços são dois espaços enormes
os meus olhos são duas garrafas de vento

e depois eu te conheço de novo numa rua isolada
minhas pernas são duas árvores floridas
os meus dedos uma plantação de sargaços

a tua figura era ao que me lembro da cor do jardim.

António Maria Lisboa, in “Ossóptico e Outros Poemas”

Na Páscoa

Nas aldeias vilas e cidades
Ouvem-se o toque das trindades
Sempre no dia de Páscoa
Invoca a presença de Deus, na cristandade
Porque ele bem sabe, quem o ama
Entre a sabedoria da divindade
No cântico de amor, está o poema
Sob a luz do sol tudo é claridade,
Que abrange a terra na eternidade
Por isso, entre lágrimas eu procuro
Encontrar um lugar seguro
Para estar sempre ao lado de Jesus
Quem sabe? Se não é a mesma cruz
Que Deus pôs, no meu caminho escondida
Trago em mim a dor tão conhecida
Onde os sinos tocam dissabores
Para as crianças homens e mulheres
Que rezam no chão baixinho
Eu choro como um pássaro sem ninho

Novo Rumo

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Um pássaro fez seu ninho,
dentro de uma escola.
E participou ativamente
de tudo o que lá se realizava.
Acompanhou pacientemente
a aprendizagem dos pássaros novos,
dos pássaros que já estavam aprendendo
e dos mestres dos pássaros,
que tanto se dedicavam.
Planejando e se empenhando
para enriquecer o saber dos seus pupilos.
O tempo foi passando…
Os pássaros novos cresceram,
voaram e encontraram seus horizontes.
Os mestres ficaram mais sábios.
E o pássaro feliz pela missão cumprida,
surpreso… viu seu ninho ser desfeito,
pela ação do tempo.
Então, com uma dor imensa n’alma,
bateu asas e voou
buscando um novo rumo.
Feliz! E triste!
A escola permanece
Certamente mudada pelo empenho de todos.
Novos pássaros entrarão e sairão.
O pássaro? Voa e busca…
Um novo caminho!
E leva consigo
este universo colorido,
dentro do pensamento
e no fundo do coração!