O anjo de pernas tortas

A um passe de Didi, Garrincha avança

Colado o couro aos pés, o olhar atento

Dribla um, dribla dois, depois descansa

Como a medir o lance do momento.

Vem-lhe o pressentimento; ele se lança

Mais rápido que o próprio pensamento,

Dribla mais um, mais dois; a bola trança

Feliz, entre seus pés

Garrincha

Ele tinha a perna torta

perna troncha, distorcida

perna errada, perna virada

invertida, dobrada, partida

era como fosse uma perna

por uma bala atingida

mas a bala que é a morte

ele a transformara em vida

e virava a bala em bala

de chupar, multicolorida

ou virava a bala em bola

elétrica, trica, divertida

Marco Polo Guimarães

O Gol

A esfera desce

do espaço

veloz

ele a apara

no peito

e a pára

no ar

depois

com o joelho

a dispõe a meia altura

onde

iluminada

a esfera

espera

o chute que

num relâmpago

a dispara

na direção

do nosso

coração.

Ferreira Gullar

De um jogador brasileiro a um técnico espanhol

Não é a bola alguma carta

que se leva de casa em casa:

é antes telegrama que vai

de onde o atiram ao onde cai.

Parado, o brasileiro a faz

ir onde há-de, sem leva e traz;

com aritméticas de circo

ele a faz ir onde é preciso;

em telegrama, que é sem tempo

ele a faz ir ao mais extremo.

Não corre: ele sabe que a bola,

Telegrama, mais que corre voa.

João Cabral de Melo Neto

O futebol brasileiro evocado da Europa

A bola não é a inimiga

como o touro, numa corrida;

e, embora seja um utensílio

caseiro e que se usa sem risco,

não é o utensílio impessoal,

sempre manso, de gesto usual:

é um utensílio semivivo,

de reações próprias como bicho

e que, como bicho, é mister

(mais que bicho, como mulher)

usar com malícia e atenção

dando aos pés astúcias de mão.

João Cabral de Melo Neto